sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Então...

E então, subitamente ela se foi. Como se sua alma rodopiasse junto com as folhas que eram levadas pelo vento em redemoinho em direção à liberdade azul do céu. Nesse instante suas palavras sorriram para mim, a morte é uma solução permanente para dores passageiras e eu soube que ela, enfim, flutuava.



sexta-feira, 14 de março de 2014

Foto Antiga




Foto Antiga

Gosto de ver fotos antigas. É como olhar nos olhos de fantasmas. Almas presas no passado. Fotos antigas me fazem pensar na brevidade da nossa vida, e na insignificância do nosso conhecimento. Olho na tela do computador aquelas pessoas ali, em preto-e-branco, tão imponentes em seus ternos bem cortados e vestidos da moda. O ano é 1926, e elas devem acreditar que sabem. Que conhecem de tudo. Será que alguma delas pensou, ou sequer imaginou que, um dia, quase um século depois, uma mulher, advogada, de vestido até o joelho, estaria vendo seus rostos através de uma máquina enquanto conversa, em tempo real, com sua amiga que está do outro lado do planeta?
Então percebo que eu sei tão pouco quanto aquelas pessoas. Para onde aquela garotinha de cabelos curtos e braços cruzados está olhando. E quem é aquele menino que se destaca por seu terno escuro e sua cabeça erguida? Será que um dos netos dele trabalha perto de mim, será que ele conheceu meu avô? Talvez tenham corrido juntos atrás de uma bola nos chãos de terra daquela época, ou não.
O garotinho no canto esquerdo parece olhar para a menina de vestido branco e braços estendidos, pra quem o padre e o homem sentado ao seu lado também parecem olhar. Mas veja, tem uma garota maior, logo atrás, apontando para a menina também.
Quem seria ela e porque chama tanta atenção? Será que eu já a vi, velhinha andando pelas ruas?
Quantas dessas pessoas já morreram? Quantas foram felizes? Quantas realizaram seus sonhos? E quantas delas podem ter influenciado de alguma forma a minha vida e a vida da minha família, o que não é incomum numa cidade pequena?

É por isso que eu amo olhar fotografias antigas, porque mesmo me lembrando de que minha vida é breve, e de que meu conhecimento é insignificante, elas me fazem imaginar centenas de histórias. 

- fefa rodrigues -


quarta-feira, 12 de junho de 2013

Falar de Amor


Falar de Amor

Quero falar de amor.
Escrever sobre o amor.
Esse nosso amor que conheço na prática;
Mas que não consigo transformar em teoria.

Quero tornar o toque da nossa pele;
O beijo da nossa boca
E o som do nosso silêncio em poesia.

Para que transformado em palavra
Torne-se eterno
Aquilo que existe entre nós

- fefa rodrigues -


Feliz Dia dos Namorados





sexta-feira, 22 de março de 2013

é breve



A brevidade da vida é o que me assusta. A nossa total incapacidade de controlar o tempo, de segurar o momento, esse momento que acabou de passar, que já não existe mais. E então penso que deve ser por isso, para não pensar nisso, para não enlouquecer com isso, que a gente se lança a tanta coisa, tanto trabalho, tanta burocracia inútil e me pergunto: “Afinal de contas, qual é a importância dessa questão, desse processo, desse requerimento? Porque diabos eu tenho que passar oito horas do meu dia dentro de uma sala de paredes marrom quando a vida está acontecendo lá fora?”.

Tudo isso talvez seja exatamente para não percebermos que a vida passa, que o tempo corre, e que não somos senhores dele, que não o controlamos. Então, apesar dessa indignação no meu peito, dessa revolta que me faz querer correr para fora e deixar que a chuva desmanche meu cabelo arrumado e borre minha maquiagem, eu me controlo, me concentro, desvio o olhar da janela e da água que cai livre, e volto para esse importante processo na minha mesa, para decidir qual é o valor do tributo que terá que ser pago.


- fefa rodrigues - 



quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Agradecimento


Oi gente, obrigada a todos que deram opiniões e colaboraram comigono desenvolvimento de São os Loucos Anos 20!!!

E agora, começo o próximo...

Beijos
Fefa Rodrigues


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

São os loucos Anos 20 - Final


São os loucos Anos 20 
Final

-“Esta menina enlouqueceu! Ele está certo, isso é uma vergonha para a nossa família” – protestou a mãe.
“Eu já disse. Ela teve minha promessa de que a decisão seria dela, apenas dela. Se é isso que ela quer, é o que ela vai ter”.
“Manoel, nós não sabemos nada sobre esse homem... nenhum de nós sequer o viu”.
“O senhor já permitiu que ela escolhesse o Lucas... mas agora, agora está se comportando como uma vadia!” – gritou o irmão.
Anita desceu os degraus da grande escadaria de mármore levando consigo apenas uma pequena maleta. Vestia um vestido leve de algodão e sentia-se livre. Havia escolhido seu caminho, tinha certeza de que era isso que queria. Do rol de entrada, olhou para biblioteca, viu sua família toda reunida ali. A mãe não a olhou, o irmão mais novo sentado num dos sofás de couro, tinha a cabeça nas mãos. O irmão mais velho parecia enlouquecido, o cabelo despenteado, o olhar de fúria. O pai assentiu levemente com a cabeça, a mãe não se dignou a olhá-la, nem para uma última despedida.
Ela sorriu e continuou a caminhar com firmeza deixando tudo para trás. No portão, Anael a esperava, o perfume das laranjeiras tomava o ar, o céu negro salpicado de estrelas. Aquele sorriso, os olhos cinza, seriam seu guia agora.
Então, tudo aconteceu rápido demais. O estouro, o cheiro de fumaça, o tiro certeiro. Sangue manchando o terno branco de linho. Os olhos cinza se fecharam. Ela correu em sua direção. Ajoelhou-se. Implorou, sujou-se de sangue abraçada ao corpo inerte. Em poucos minutos os pais e o irmão mais novo estavam ao seu lado. Os empregados correram até lá, ela queria que o socorressem, mas parecia que não o viam ali, sangrando no chão. Tentavam examiná-la, ver se algo havia acontecido com ela. Mas não era ela que estava ferida, era ele, porque ninguém fazia algo para socorrê-lo? Foi levada para dentro, meio que arrastada. Ao passar pelo irmão mais velho, na porta de entrada, viu a arma em suas mãos, o cheio de pólvora enchia o ar. Compreendeu quem havia atirado. O irmão mais novo gritava sobre ter perdido o juízo, sobre ela ser irmã deles, sangue do sangue e que seria um crime abominável causar a morte da própria irmã. 
A partir daí tudo se deu com uma lentidão estranha. Ela agiu com calma. Desprendeu-se das mãos da empregada que a levava para dentro, arrancou a arma das mãos do irmão mais velho, apontou em sua direção, mas o irmão mais novo tentou impedi-la. Mais um tiro foi disparado naquela noite, mas atingiu o pai que vendo o tumulto corria em sua direção. O olhar petrificado do pai, o joelho ferido, era a única lembrança que ainda a fazia sentir algo.

(...)

Viu a si mesma deitada no chão, os olhos fechados. Olhou para cima, em direção ao céu azul, e o que viu foi aquele cinza, guiando seu caminho.

(...)

- Eu acho mórbido! – disse com sua habitual sinceridade.
- Não me importa, eu gosto desse ar de coisa antiga!!
- E se der azar? Ah! Claro, você não acredita nessas coisas – retrucou ao ver o ceticismo nos olhos da amiga.
- Você é minha madrinha, devia me apoiar, não acha?
- É exatamente por que eu sou sua madrinha que eu tento fazer você mudar de idéia, colocar um pouco de juízo na sua cabeça. Eu confesso que a igrejinha é realmente uma graça, mas esse cemitério em volta, me dá arrepios... Quem em sã consciência deseja se casar em um lugar assim?
- Um lugar assim? Não te entendo, eu acho lindo, cheio de lembranças!! Veja aquele mausoléu, que construção maravilhosa... Venha, vamos ver mais de perto? – disse já correndo.
As duas amigas correram em meios aos túmulos antigos daquele cemitério centenário em direção a uma grande construção de mármore branco imaculado que, diferentemente dos demais túmulos ali existentes, perecia não ter sido tocado pelo tempo.
- Olha, é uma foto... uma moça, tão jovem... coitada! E que bonita ela era... – observou a noiva.
- Antigamente as mulheres eram tão fraquinhas, não é? Aposto que morreu de pneumonia!!
- Ou de amor – completou, observando aquele rosto marcante de cabelos chanel e leu o nome na lápide – Anita. Por algum tempo ficou ali, pensando naquela mulher, em quem teria sido ela e como teria vivido sua curta vida. Os pensamentos foram interrompidos pela impaciência da melhor amiga.
- Vamos, já cansei desse lugar horrível, e ainda quero passar no shopping! Eu estou indo, se quiser fique ai sozinha com todos os fantasmas que devem habitar esse lugar – enquanto se afastava. Sozinha, a noiva ajoelhou-se e tocou o retrato da jovem morta.
- Adeus, espero que tenha sido feliz.
Levantou-se e por mais alguns segundos permaneceu ali, contemplando a beleza do lugar, beleza que poucos conseguem ver em locais assim.
Ao se virar, levou um grande susto ao se deparar com aqueles olhos.
Olhos cinza. 


fim

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

São os Loucos Anos 20 - Parte X


São os Loucos Anos 20
Parte X

“Papai, o senhor não pode permitir isso, é uma loucura! Não a deixe sair por esta porta. Não a deixe... é uma vergonha para nossa família... ela estará perdida para sempre!!” – o irmão mais velho gritava enfurecido. Havia perdido a cabeça com a notícia de que a bela Anita deixaria a casa dos pais, o casamento e toda uma vida de luxo para trás, sem qualquer oposição do pai.
A notícia tinha sido dada por Anita, que regressara para casa, após receber um ultimato dos pais exigindo sua presença imediatamente, a fim de explicar a razão pela qual, sem prévio aviso, havia rompido com o noivo, sem maiores explicações, após exigir que todos os amigos a deixassem sozinha na Fazenda e despachar todos os criados de volta, mantendo consigo apenas duas das criadas mais próximas.
Alguns dos amigos que haviam sido convidados a se retirar da fazenda, haviam visitado a mansão da família Garrilha para narrar aos pais de Anita como, sem que ninguém entendesse o que estava acontecendo, ela começara a se comportar de forma estranha. Todos concordavam que aquele comportamento havia começado no dia em que encontram Anita, que havia voltado para casa sozinha depois de um incidente na cachoeira, próxima ao portão da Casa Grande, olhando fixamente ao longe, sem que fosse possível identificar o que lhe chamava a atenção. 
Mais tarde, naquela noite, Anita não dissera uma única palavra durante todo o jantar e se retirara para dormir logo após a sobremesa. Nos dias seguintes seu comportamento piorara. Em companhia dos amigos, mal falava, estava sempre distante, olhando ao longe, como se visse algo que ninguém mais via. Deixou de passar as noites no salão de jogos e aos poucos deixou de ter qualquer relação com eles e até mesmo com o noivo. Já não participava das caminhadas ou cavalgadas, dos jogos, das idas à cachoeira. Retirava-se para o quarto cada vez mais cedo e levantava-se cada vez mais tarde, até que passou a mal sair do quarto e, por vezes, à noite, os amigos ouviam sua voz, como se estivesse conversando com alguém.
Como todos estavam sempre juntos, e não conseguiam compreender quem lhe fazia companhia naquelas noites de conversa, começaram a suspeitar de que Anita tivesse adoecido e, em conseqüência disso, talvez, estivesse até mesmo delirando. Diante dessa suspeita, e não sem certo contentamento por verem, enfim, uma fraqueza na bela e forte Anita, as moças decidiram que era necessário fazer algo. Então, numa noite, logo que Anita se retirou, se puseram ao lado de seu quarto e esperaram até ouvirem sua voz. Com a ajuda de Marcos, a porta foi arrombada e a cena que contemplaram, diziam as moças, causara arrepios em todas elas. 
Anita nua, de costas, conversava alegremente com alguém, alguém que as moças não conseguiram ver, alguém que, segundo elas, não estava ali. Mas, diziam as moças com os olhos arregalados, o que mais as assustara havia sido o olhar de Anita, iluminado apenas pela luz da lua que entrava pela janela que acabara de se abrir por uma forte rajada de vento.
Sem qualquer pudor Anita se levantou e pôs-se a enxotar a todos, gritando e exigindo que os amigos deixassem a casa imediatamente, chamou os criados e ordenou que todos deviam deixar a propriedade em meia hora e, os que não o fizessem, deviam ser expulsos do local. Lucas, vendo a loucura em seus olhos, arrancou sua camisa e correu em direção à noiva para envolver sua nudez, sendo surpreendido pela força com que Anita o empurrou, e com o orgulho ferido pelo tapa que sentiu em seu rosto, tentou segurar seus braços com força “Anita, o que está acontecendo? Perdeu o Juízo? Se comporte, você é minha noiva!”.
“Não sou mais sua noiva... me deixe... eu não quero mais você aqui, nem você nem nenhum desses idiotas!”.  
Naquela mesma noite, todos fizeram as malas a tempo de embarcar no primeiro trem da madrugada que seguia para a cidade. Lucas e Marcos ficaram. Pretendiam conversar com Anita, entender o que estava acontecendo e levá-la dali, a força se necessário. No dia seguinte, Anita, aparentava estar em seu juízo perfeito, encontrou os dois amigos na varanda e foi categórica em afirmar que não os queria ali e que o noivado estava acabado. Quando Lucas tentou argumentar, questionar, ela limitou-se a virar as costas e deixou-o falando sozinho. Lucas ainda tentou entrar na casa para exigir que Anita voltasse com ele para a cidade, mas foi impedido por um dos criados que acompanhou os dois rapazes até os limites da propriedade, deixando-os com suas malas para seguir caminho.
Durante as horas passadas no trem, Lucas decidira que rumaria diretamente para a capital. Não tinha ânimo de enfrentar os amigos que com certeza já haviam espalhado a história da loucura de Anita por toda a alta sociedade, não queria dar explicações ou encontrar os pais da noiva e, acima de tudo, depois de tamanha humilhação, não queria ver Anita. Então, limitou-se a escrever uma carta para a mãe, contando o acontecido, e um bilhete aos pais de noiva, informando que, por iniciativa da filha deles, o noivado estava acabado. Marcos se encarregaria de entregar as correspondências, e dar maiores detalhes do acontecimento.  

(continua)