quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

São os Loucos Anos 20 - Parte X


São os Loucos Anos 20
Parte X

“Papai, o senhor não pode permitir isso, é uma loucura! Não a deixe sair por esta porta. Não a deixe... é uma vergonha para nossa família... ela estará perdida para sempre!!” – o irmão mais velho gritava enfurecido. Havia perdido a cabeça com a notícia de que a bela Anita deixaria a casa dos pais, o casamento e toda uma vida de luxo para trás, sem qualquer oposição do pai.
A notícia tinha sido dada por Anita, que regressara para casa, após receber um ultimato dos pais exigindo sua presença imediatamente, a fim de explicar a razão pela qual, sem prévio aviso, havia rompido com o noivo, sem maiores explicações, após exigir que todos os amigos a deixassem sozinha na Fazenda e despachar todos os criados de volta, mantendo consigo apenas duas das criadas mais próximas.
Alguns dos amigos que haviam sido convidados a se retirar da fazenda, haviam visitado a mansão da família Garrilha para narrar aos pais de Anita como, sem que ninguém entendesse o que estava acontecendo, ela começara a se comportar de forma estranha. Todos concordavam que aquele comportamento havia começado no dia em que encontram Anita, que havia voltado para casa sozinha depois de um incidente na cachoeira, próxima ao portão da Casa Grande, olhando fixamente ao longe, sem que fosse possível identificar o que lhe chamava a atenção. 
Mais tarde, naquela noite, Anita não dissera uma única palavra durante todo o jantar e se retirara para dormir logo após a sobremesa. Nos dias seguintes seu comportamento piorara. Em companhia dos amigos, mal falava, estava sempre distante, olhando ao longe, como se visse algo que ninguém mais via. Deixou de passar as noites no salão de jogos e aos poucos deixou de ter qualquer relação com eles e até mesmo com o noivo. Já não participava das caminhadas ou cavalgadas, dos jogos, das idas à cachoeira. Retirava-se para o quarto cada vez mais cedo e levantava-se cada vez mais tarde, até que passou a mal sair do quarto e, por vezes, à noite, os amigos ouviam sua voz, como se estivesse conversando com alguém.
Como todos estavam sempre juntos, e não conseguiam compreender quem lhe fazia companhia naquelas noites de conversa, começaram a suspeitar de que Anita tivesse adoecido e, em conseqüência disso, talvez, estivesse até mesmo delirando. Diante dessa suspeita, e não sem certo contentamento por verem, enfim, uma fraqueza na bela e forte Anita, as moças decidiram que era necessário fazer algo. Então, numa noite, logo que Anita se retirou, se puseram ao lado de seu quarto e esperaram até ouvirem sua voz. Com a ajuda de Marcos, a porta foi arrombada e a cena que contemplaram, diziam as moças, causara arrepios em todas elas. 
Anita nua, de costas, conversava alegremente com alguém, alguém que as moças não conseguiram ver, alguém que, segundo elas, não estava ali. Mas, diziam as moças com os olhos arregalados, o que mais as assustara havia sido o olhar de Anita, iluminado apenas pela luz da lua que entrava pela janela que acabara de se abrir por uma forte rajada de vento.
Sem qualquer pudor Anita se levantou e pôs-se a enxotar a todos, gritando e exigindo que os amigos deixassem a casa imediatamente, chamou os criados e ordenou que todos deviam deixar a propriedade em meia hora e, os que não o fizessem, deviam ser expulsos do local. Lucas, vendo a loucura em seus olhos, arrancou sua camisa e correu em direção à noiva para envolver sua nudez, sendo surpreendido pela força com que Anita o empurrou, e com o orgulho ferido pelo tapa que sentiu em seu rosto, tentou segurar seus braços com força “Anita, o que está acontecendo? Perdeu o Juízo? Se comporte, você é minha noiva!”.
“Não sou mais sua noiva... me deixe... eu não quero mais você aqui, nem você nem nenhum desses idiotas!”.  
Naquela mesma noite, todos fizeram as malas a tempo de embarcar no primeiro trem da madrugada que seguia para a cidade. Lucas e Marcos ficaram. Pretendiam conversar com Anita, entender o que estava acontecendo e levá-la dali, a força se necessário. No dia seguinte, Anita, aparentava estar em seu juízo perfeito, encontrou os dois amigos na varanda e foi categórica em afirmar que não os queria ali e que o noivado estava acabado. Quando Lucas tentou argumentar, questionar, ela limitou-se a virar as costas e deixou-o falando sozinho. Lucas ainda tentou entrar na casa para exigir que Anita voltasse com ele para a cidade, mas foi impedido por um dos criados que acompanhou os dois rapazes até os limites da propriedade, deixando-os com suas malas para seguir caminho.
Durante as horas passadas no trem, Lucas decidira que rumaria diretamente para a capital. Não tinha ânimo de enfrentar os amigos que com certeza já haviam espalhado a história da loucura de Anita por toda a alta sociedade, não queria dar explicações ou encontrar os pais da noiva e, acima de tudo, depois de tamanha humilhação, não queria ver Anita. Então, limitou-se a escrever uma carta para a mãe, contando o acontecido, e um bilhete aos pais de noiva, informando que, por iniciativa da filha deles, o noivado estava acabado. Marcos se encarregaria de entregar as correspondências, e dar maiores detalhes do acontecimento.  

(continua) 


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