sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

São os loucos Anos 20 - Final


São os loucos Anos 20 
Final

-“Esta menina enlouqueceu! Ele está certo, isso é uma vergonha para a nossa família” – protestou a mãe.
“Eu já disse. Ela teve minha promessa de que a decisão seria dela, apenas dela. Se é isso que ela quer, é o que ela vai ter”.
“Manoel, nós não sabemos nada sobre esse homem... nenhum de nós sequer o viu”.
“O senhor já permitiu que ela escolhesse o Lucas... mas agora, agora está se comportando como uma vadia!” – gritou o irmão.
Anita desceu os degraus da grande escadaria de mármore levando consigo apenas uma pequena maleta. Vestia um vestido leve de algodão e sentia-se livre. Havia escolhido seu caminho, tinha certeza de que era isso que queria. Do rol de entrada, olhou para biblioteca, viu sua família toda reunida ali. A mãe não a olhou, o irmão mais novo sentado num dos sofás de couro, tinha a cabeça nas mãos. O irmão mais velho parecia enlouquecido, o cabelo despenteado, o olhar de fúria. O pai assentiu levemente com a cabeça, a mãe não se dignou a olhá-la, nem para uma última despedida.
Ela sorriu e continuou a caminhar com firmeza deixando tudo para trás. No portão, Anael a esperava, o perfume das laranjeiras tomava o ar, o céu negro salpicado de estrelas. Aquele sorriso, os olhos cinza, seriam seu guia agora.
Então, tudo aconteceu rápido demais. O estouro, o cheiro de fumaça, o tiro certeiro. Sangue manchando o terno branco de linho. Os olhos cinza se fecharam. Ela correu em sua direção. Ajoelhou-se. Implorou, sujou-se de sangue abraçada ao corpo inerte. Em poucos minutos os pais e o irmão mais novo estavam ao seu lado. Os empregados correram até lá, ela queria que o socorressem, mas parecia que não o viam ali, sangrando no chão. Tentavam examiná-la, ver se algo havia acontecido com ela. Mas não era ela que estava ferida, era ele, porque ninguém fazia algo para socorrê-lo? Foi levada para dentro, meio que arrastada. Ao passar pelo irmão mais velho, na porta de entrada, viu a arma em suas mãos, o cheio de pólvora enchia o ar. Compreendeu quem havia atirado. O irmão mais novo gritava sobre ter perdido o juízo, sobre ela ser irmã deles, sangue do sangue e que seria um crime abominável causar a morte da própria irmã. 
A partir daí tudo se deu com uma lentidão estranha. Ela agiu com calma. Desprendeu-se das mãos da empregada que a levava para dentro, arrancou a arma das mãos do irmão mais velho, apontou em sua direção, mas o irmão mais novo tentou impedi-la. Mais um tiro foi disparado naquela noite, mas atingiu o pai que vendo o tumulto corria em sua direção. O olhar petrificado do pai, o joelho ferido, era a única lembrança que ainda a fazia sentir algo.

(...)

Viu a si mesma deitada no chão, os olhos fechados. Olhou para cima, em direção ao céu azul, e o que viu foi aquele cinza, guiando seu caminho.

(...)

- Eu acho mórbido! – disse com sua habitual sinceridade.
- Não me importa, eu gosto desse ar de coisa antiga!!
- E se der azar? Ah! Claro, você não acredita nessas coisas – retrucou ao ver o ceticismo nos olhos da amiga.
- Você é minha madrinha, devia me apoiar, não acha?
- É exatamente por que eu sou sua madrinha que eu tento fazer você mudar de idéia, colocar um pouco de juízo na sua cabeça. Eu confesso que a igrejinha é realmente uma graça, mas esse cemitério em volta, me dá arrepios... Quem em sã consciência deseja se casar em um lugar assim?
- Um lugar assim? Não te entendo, eu acho lindo, cheio de lembranças!! Veja aquele mausoléu, que construção maravilhosa... Venha, vamos ver mais de perto? – disse já correndo.
As duas amigas correram em meios aos túmulos antigos daquele cemitério centenário em direção a uma grande construção de mármore branco imaculado que, diferentemente dos demais túmulos ali existentes, perecia não ter sido tocado pelo tempo.
- Olha, é uma foto... uma moça, tão jovem... coitada! E que bonita ela era... – observou a noiva.
- Antigamente as mulheres eram tão fraquinhas, não é? Aposto que morreu de pneumonia!!
- Ou de amor – completou, observando aquele rosto marcante de cabelos chanel e leu o nome na lápide – Anita. Por algum tempo ficou ali, pensando naquela mulher, em quem teria sido ela e como teria vivido sua curta vida. Os pensamentos foram interrompidos pela impaciência da melhor amiga.
- Vamos, já cansei desse lugar horrível, e ainda quero passar no shopping! Eu estou indo, se quiser fique ai sozinha com todos os fantasmas que devem habitar esse lugar – enquanto se afastava. Sozinha, a noiva ajoelhou-se e tocou o retrato da jovem morta.
- Adeus, espero que tenha sido feliz.
Levantou-se e por mais alguns segundos permaneceu ali, contemplando a beleza do lugar, beleza que poucos conseguem ver em locais assim.
Ao se virar, levou um grande susto ao se deparar com aqueles olhos.
Olhos cinza. 


fim

3 comentários:

  1. Adorei o final, Fefa! Muito bom! :)

    Parabéns, o conto é excelente! Envolvente e com um final surpreendente.

    Beijos!

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