terça-feira, 8 de janeiro de 2013

São os Loucos Anos 20 - Parte IV


São os Loucos Anos 20
Parte IV

Anita acordou irritada e passou o dia incomodada, nada lhe parecia bom. Reclamou do suco de laranja no café da manhã, do tempero no almoço e desistiu de jantar quando percebeu que o problema era com ela. Os pais, notando que algo de estranho acontecia, culparam o noivo por um dia após a festa de noivado ter se retirado para a capital, a fim de resolver questões relacionadas aos seus novos investimentos na bolsa. A mãe então sugeriu que naquela noite fossem todos ao teatro o que ela aceitou imediatamente. Amava ir ao teatro e naquela noite encenariam uma de suas óperas favoritas, Carmem. Isso a animou e logo se pôs a preparar o traje que usaria, seria seu mais novo vestido, acabado de chegar da modista, cor vermelho-sangue com um ousado decote mostrando as costas muito brancas, com certeza provocaria o delírio dos rapazes e o ódio das donzelas.
Do camarote da família ela se deixava observar enquanto vagava o olhar um pouco acima da multidão. Era sempre assim, gostava de ser o centro das atenções enquanto agia como se estivesse sozinha, como se não existisse ninguém além dela mesma. Sabia que isso aumentava o fascínio de todos por sua pessoa e isso criava um sentimento de excitação. 
O espetáculo foi fascinante e a emocionou como sempre a emocionava. Ela reconhecia em si um pouco de Carmem, às vezes se perguntava se estava no caminho certo, se aquele casamento não seria um confinamento como os outros, mas então se lembrava da paixão de Lucas pela vida, pelas viagens e pelo conhecimento, e se convencia de que ele era a escolha certa, ele era a porta aberta para uma vida esplendida, não só de riqueza, pois isso ela já tinha, mas de tudo aquilo que alguém com sua inteligência  e refinamento podia sonhar.
Na saída do teatro, um breve tumulto provocado por um acidente nas imediações obrigou-os, ela e os pais, a esperar pelo chofer. Os pés doloridos esmagados dentro dos finos sapatos de cetim, enquanto esperava, impaciente, olhava ao longe, não queria cruzar os olhos com mais ninguém, aquela espera a fazia igual aos demais, ali parados em pé, sentiu que a irritação começava a voltar e enquanto observa a aglomeração de pessoas próximas ao local do acidente, por um breve momento encontrou aqueles olhos cinza na multidão. Olhos indolentes.
Sentiu o coração bater mais forte. “Ele...” pensou arfando “são apenas olhos” disse para si mesma tentando se acalmar, mas sentindo o rubor nas faces. Suas mãos tremiam, sentiu uma leve falta de ar até que a visão foi interrompida pelo Ford de seu pai que estacionou à sua frente, entre ela e aqueles olhos.
“Filha querida, você está bem?” exclamou o pai tocando levemente as mãos quentes em seus ombros nus e gelados. “Sim meu pai, apenas cansada” ela respondeu. “Não devíamos ter vindo” – disse o pai enquanto do banco traseiro do confortável automóvel dava sinal ao motorista para acelerar – “Após todas as emoções de ontem, você tem que se recuperar, você precisa descansar... seria bom ir passar uns dias na Fazenda, que tal?”.
Anita apenas balançou a cabeça, os pensamentos já estavam longe.

(continua)

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