segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

São os Loucos Anos 20 - Parte VIII


São os Loucos Anos 20
Parte VIII

“Me perdoe, não queria te assustar... Anita”. 
“Não assustou” – disse ela sentindo o coração bater tão forte que tinha certeza de que ele podia ouvir. Só então se deu conta de que ele a havia chamado por seu nome. Tentou se acalmar dizendo a si mesma que todos a conheciam naquele lugar, ele poderia ter ouvido alguém do vilarejo comentar sobre a filha do rico Manuel Garrilha, ou mesmo ter perguntado por ela. Não seria nada difícil descobrir seu nome na cidade, ali, nas terras de seu pai, seria ainda mais fácil. 
“Não é o que parece... ” – insistiu ele. 
“Pois você se engana, porque eu deveria me assustar enquanto ando pelas terras de meu pai? Com  licença” – disse desviando dele e seguindo em frente em direção à trilha.
“Tem razão, não há qualquer motivo para susto. Será que eu poderia te acompanhar?”.
“Não posso te impedir, posso?” – Anita respondeu sem sequer olhar para trás ou diminuir o passo. Tentava manter o controle e aquele comportamento que destinava a todos os seus pretendentes, fria e distante. Sabia que era o único caminho seguro até o coração de um homem, mas sabia também que estava sendo imensamente difícil agir daquela forma ao lado daquele homem com quem acabara de trocar as primeiras palavras, mas que parecia fazer parte de sua vida desde sempre, como se a conhecesse mais do que qualquer um. Reconhecesse tudo que ela era apenas com aquele olhar.
Anita caminhou um à sua frente seguida por ele há poucos passos de distância. Podia sentir sua respiração e, mesmo sem vê-lo, estava certa de que ele sorria. Era como se ele tivesse consciência de todos os tormentos que lhe causara quando ela o via pelas ruas da cidade ou pelos locais mais inesperados, como ali, nas terras de seu pai, ou quando passava dias sem ver aqueles olhos cinza, o que lhe atormentava ainda mais.
Caminhava em silêncio, consciente de que sua vontade - uma vontade que ela mal conseguia controlar - era virar-se e beijá-lo. Mas era orgulhosa demais para tomar uma atitude tão vulgar. Sabia que era apenas o orgulho que a impedia. Afinal, não sabia quem ele era. Apesar de suas roupas não denunciarem sua condição social, ele poderia ser filho de um dos empregados do seu pai, um funcionário público de terceiro escalão ou, ainda pior, um pequeno comerciante, a única certeza é que ele não pertencia a qualquer das ricas famílias da cidade ou do país, senão sua existência já teria se espalhado pelos salões excitando as jovens solteiras da alta sociedade. Não era Lucas, o casamento ou seu pai que a impedia de virar-se. Era apenas seu orgulho.
A magnifica entrada da casa grande surgiu à frente e ela não sentiu alívio, sentiu-se sim oprimida por saber que se separaria dele sem saber seu nome se não fizesse algo. Tivera a certeza, logo após as primeiras palavras trocadas entre eles em meio a plantação de eucaliptos, que, assim como os outros, ele tentaria falar com ela, tentaria impressioná-la. Mas isso não acontecera. Haviam percorrido todo o caminho no mais profundo silêncio. 
Ela passou pelos grandes portões de ferro fundido e percebeu que ele havia parado além dos limites da propriedade. Olhou para ele e recebeu de volta aquele olhar fascinante. Continuou por mais alguns passo, voltou-se novamente, odiando a si mesma pela fraqueza.
“E então, vai ficar ai parado?” – perguntou.
Começava a anoitecer e as estrelas pontilhavam o céu entre o azul escuro e o negro. Ele apenas sorriu, muito mais com os olhos do que com os lábios, mas permaneceu ali, em pé, sem resposta, parecendo compreender que tinha o domínio da situação, que faltava muito pouco para ela ser inteiramente dele. Anita virou-se novamente em direção a casa, extremamente irritada, não aguentava mais aquela angustia e a ansiedade que tomava todo seu ser, poucos passos depois parou, balançou a cabeça tentando colocar os pensamentos no lugar. Não conseguiu.  Olhou para trás. Lá estava ele. Parado, observando.
“Como você se chama?” – perguntou-lhe finalmente.
“Anael” – disse ele com aquele sorriso de quem enfim conquista algo.

(continua)


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