quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

São os Loucos Anos 20 - Parte VII


São os Loucos Anos 20
Parte VII


Naquele dia tudo mudou. Estavam todos na cachoeira. As moças sentadas jeitosamente na margem molhando os pés descalços, os moços exibindo-se em saltos, disputando a coragem de quem saltava do ponto mais alto. Os risos e gritos das moças e as provocações dos rapazes enchiam o ar. Anita não se divertia. Sentia vontade de estar só. Sentia que não pertencia mais àquele mundo, onde ainda a tinham como rainha. Queria correr dali, e a desculpa veio quando Marcos, um dos amigos, saltou muito perto dela, fazendo água jorrar e molhar todo seu cabelo.
Irritada Anita se levantou e disse que não continuaria ali naquela situação e que voltaria para a Casa Grande. Quando algumas das moças e rapazes fizeram menção de acompanhá-la sua oposição foi tão firme que todos desistiram imediatamente. “O que tem Anita?”, quiseram saber, “Não sei, não deve ser nada... coisa de mulheres”, Lucas tentou explicar.
Anita tomou o caminho em direção a casa, caminho que ela conhecia bem desde criança. Não a trilha usada por todos, mas aquele caminho secreto que apenas os irmãos, a babá e ela conheciam desde pequenos. Ali o clima era ameno, pois pouquíssimos raios de sol conseguiam vencer o obstáculo e penetrar entre as árvores. A solidão e o aroma melhoraram seu humor. Caminhava escutando seus próprios passos, já que o silêncio em meio a enorme plantação de eucaliptos era profundo.
Enquanto caminhava se lembrava de que quando era criança corria com os irmãos por entre aquelas árvores. Apenas naquele lugar, na fazenda, é que era livre. Livre das maneiras calculadas, livre das rendas e fitas de cetim, das meias de seda e dos sapatos apertados de verniz. Livre de regras sociais, das repostas feitas, do óbvio.  
Se deu conta de que apenas ali era feliz de verdade, porque apenas ali podia ser ela mesma. Todo o prazer que sentia sendo tudo que era em meio à alta sociedade não era nem de longe tão completo como o prazer que sentia estando ali, sozinha, em meio ao silêncio e aos cheiros de planta e terra úmida.
Resolveu sentar-se no chão de terra fofa e desfrutar daquela paz de espírito por mais tempo. Recostou-se em uma das árvores, fechou os olhos evocando imagens de sua infância. Estava em devaneio quando ouviu um som parecido com o bater de asas. Abriu os olhos e se levantou assustada, olhando para cima, em busca da ave. Estranhou. Não se lembrava de já ter visto aves em meio aos eucaliptos. Olhou em volta. Não viu nada. Sentiu as batidas do coração voltando ao compasso normal. Resolveu continuar caminhando em direção à Casa Grande. Novamente aquele som, como asas batendo às suas cotas. Ela olhou para trás. Não havia nada, pássaro algum. Acelerou o passo. Começou a sentir-se perdida e assustada, como se algo ou alguém a vigiasse. A sensação oprimia seu peito. Reconheceu o medo se instalando.
Decidiu voltar para a trilha conhecida, onde poderia encontrar os amigos voltando para casa ou algum dos empregados do pai. Retomando o autocontrole virou-se em direção àquele caminho e surpreendeu-se com os olhos cinza bem à sua frente. 

(continua)

2 comentários:

  1. Essa história fica cada vez mais emocionante!!! Mal estou me aguentando de ansiedade pela próxima parte.

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