terça-feira, 8 de janeiro de 2013

São os Loucos Anos 20 - Parte V


São os Loucos Anos 20
Parte V

Anita estava certa de que algo havia mudado. Antes, apesar da ausência de paixão entre ela e Lucas, sempre esperava com entusiasmo os dias em que o noivo viria passar na residência da família. Gostava de conversar com ele e planejar os lugares que visitariam durante o tempo em que morariam na Europa. Ela já havia visitado o continente inúmeras vezes, mas sabia que com Lucas seria diferente. Nada daqueles hotéis luxuosos e passeios monótonos que estava acostumada a fazer com seus pais. Com Lucas ela poderia tocar as paredes do coliseu, caminhar pelas ruas de Barcelona e beija-lo no alto da Torre Eiffel. Adorava imaginar estas coisas quando estava sozinha, antes de dormir ou quando fazia a longa viagem de trem, mas agora, seguindo em direção à fazenda do pai para encontrar o noivo, seu humor estava péssimo.
Desde o dia depois da grande festa de noivado, todos à sua volta perceberam a mudança em seu comportamento. Antes fria, chegando quase a ser distante, parecia que nada era capaz de alterá-la, agora, tudo a irritava, durante os jantares, apenas com a família ou com os convidados, Anita que outrora sempre adorava comentar os grandes acontecimentos da política e economia do país e do mundo, agora permanecia a maior parte do tempo calada, como se seus pensamentos estivessem longe dali.
Os pais, acreditando que tudo aquilo se devia a ausência do noivo e a ansiedade da filha donzela com o casamento que estava marcado para dali a poucos meses, contataram os pais de Lucas e sugeriram de forma bastante enfática que ele deveria passar alguns daqueles quentes dias de verão no frescor do campo, juntamente com a noiva, sua família e alguns convidados.
Logo que o telegrama de Lucas chegou, informando que ele rumaria direto da capital para a fazenda do futuro sogro, os empregados se colocaram em polvorosa para finalizar todos os preparativos dentro do prazo determinado pela Sra. Isabella Guerrilha. Eram tantos baús com roupas finas, perfumes, maquiagens e tudo aquilo de que Anita mais gostava, que a viagem teve que ser feita em dois comboios. E, em meio aquele entra e sai de pessoas, Anita sentia que seu coração iria explodir.
No começo ela tentou se enganar, mas, a cada vez que encontrava aqueles olhos cinza pelas ruas da cidade, olhos que pareciam estar em todos os lugares por onde ela ia, percebeu que aquele era o problema. A princípio dizia a si mesma que odiava aqueles olhos que a seguiam por toda parte, mas aos poucos, percebeu que passara a escolher suas roupas sempre pensando que ele a veria e, a cada passeio, percebia que não se acalmava até encontrar os olhos cinza. Agora, aquela raiva que sentia cada vez que encontrava os olhos que a olhavam do mesmo nível havia desaparecido, e ela sabia que, na verdade, ansiava por encontrá-los. A consciência desse desejo a atormentava. Não conseguia lutar contra esse sentimento e não tinha com quem compartilhar seu desespero. Perdeu a fome, perdeu o interesse pelos livros e conversas, até pelos vestidos da moda, e a cada vez que fechava os olhos, a única imagem que tomava sua mente eram aqueles olhos.
Ali no trem, a caminho da fazenda do pai e de encontro ao noivo, tinha certeza de que o destino se encarregaria de por os olhos cinza em seu caminho e, ao mesmo tempo em que temia encontrá-los, ansiava por vê-los. Pensava na estranheza daquilo e não conseguia compreender. Nunca fora supersticiosa, mas começa a pensar que havia algo além de suas forças capaz de criar aquela obsessão.
Não sabia dizer de onde aquilo tinha vindo, como aquele sentimento havia nascido, só sabia que olhar e ser olhada por aqueles olhos tinha se tornado a razão de sua existência.

(continua) 

Um comentário:

  1. Como sempre, a história está maravilhosamente bem escrita! E muito obrigada por proporcionar uma história muitíssimo interessante, na qual, mesmo que por alguns instantes, eu possa fugir e me sentir mesmo nos anos 20.

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