sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

São os Loucos Anos 20 - Parte I


São os Loucos Anos 20  
Parte I

As gotas da chuva batiam com força na janela embaçada. Ela queria que aquelas gotas estivessem batendo em seu rosto, talvez voltasse a sentir dor. Talvez voltasse a sentir alguma coisa. A porta de madeira estava trancada, arranhões e lascas de tinta eram apenas uma lembrança de sua luta anterior. Agora tinha desistido de lutar. Na verdade tinha desistido de viver, mas naquele quarto escuro não havia meios para que essa questão fosse, enfim, resolvida. Estava ali para ser castigada, castigada por ser diferente, por não querer o que eles queriam para ela, se devia ser castigada, se não devia ser quem era, porque a impediam de colocar um fim em tudo aquilo? Agora até a comida vinha em pratos de alumínio, pratos de criança. Mas ela não comia. Não suportava o cheiro. Apenas água. Era suficiente.
Não sabia quantos dias já haviam se passado, mas pelo comprimento que seu cabelo atingia devia fazer muito tempo. Seu cabelo cor de mel. Foi uma das primeiras a adotar o corte chanel, imitando a famosa estilista. Chegou com os cabelos curtos depois de uma temporada em Paris e por onde andava sentia os olhos observando-a. Não demorou para que outras moças de fino-trato seguissem a moda que acabou por se espalhar por todas as camadas sociais. 
Aliás, adorava lançar moda. Sentia um prazer inexplicável quando elogiavam seus vestidos, sapatos, chapéus, mas seu prazer era ainda maior quando, em vez de receber um elogio, identificava um olhar de inveja, nessas ocasiões, limitava-se a esboçar seu mais doce sorriso sabendo que mesmo aquelas que a invejavam, cedo ou tarde, acabavam se rendendo às suas inovações.
Nunca se esqueceria da noite em que, em meio a uma das freqüentes recepções na mansão da família, acendera uma cigarrete. Todos os olhos em sua direção e depois em direção a seu pai. “São os loucos anos 20”, ele havia dito entre os dentes muito brancos, cerrados em volta de seu charuto cubado, aprovando com seu sorriso sob o bigode negro, lustroso e bem cuidado, a modernidade da filha. Sua mãe, sempre distante, mas não menos orgulhosa, ergueu levemente a taça de champangne em sua direção, brindando a tudo o que ela representava.
Anita, filha do rico Sr. Manoel Garrilha, empresário do ramo têxtil, cercada de luxo e riqueza, desde muito pequena mostrou-se inteligente. Tocava piano, falava francês, espanhol, italiano e inglês. Conhecia as artes, lia os clássicos, sempre que possível em versão original, conversava com desenvoltura tanto com as ricas senhoras da alta sociedade como com os finos senhores industriais. Era a jóia mais brilhante em sua sociedade, a mais valiosa e a mais desejada, mas todos sabiam que a escolha seria dela, apenas dela, e ela tinha uma grande variedade para escolher. Nada era mais certo do que seu futuro confortável e feliz, mas o destino é tudo e a vida escolhe seus próprios caminhos.
Agora aquelas noites quentes, cheias de música e conversas, perfumadas pelas laranjeiras do jardim, pareciam ter acontecido há centenas de anos. Teria sido outra vida, outra pessoa, acima de tudo. A mãe já não ligava a vitrola para ouvir as músicas da moda. O único som que chegava até ali eram os passos do pai acompanhados pelo bater rítmico da muleta que agora era obrigado a usar. Tudo isso devia causar-lhe remorso, mas não era isso que sentia. Já não sentia nada, mas sabia que, se ainda fosse capaz de sentir, não seria remorso, não seria amor por seus pais, nem sequer saudades dos dias felizes, seria apenas aquela obsessão que já não podia existir, afinal, não pode haver obsessão quando o objeto do desejo desapareceu. 
Sentiu um formigamento na coluna, resultado das horas em que passara sentada no beiral da janela olhando o mundo lá fora. Não era para lá que queria fugir, não existia mais nada para ela lá fora. Queria fugir de si mesma, queria deixar a vida, não havia mais razão para existir, mas continuava ali, dia após dia, e em alguns momentos tinha certeza de que iria enlouquecer, mas os deuses não eram misericordiosos, e sua mente continuava perfeita, com todas as lembranças para lhe atormentar.
“Isso só pode ser macumba!” ela ouviu uma das criadas que traziam sua refeição que mais uma vez não seria tocada, “Já vi isso acontecer antes, e só vai passar se uma boa mãe de santo vier quebrar o trabalho, senão ela morre e não come. O bicho é ruim!”. Será que ela era o bicho ruim? 
Com alguma dificuldade levantou-se, os pés no chão gelado, descalços, um arrepio correu por em sua nuca. Pegou o copo de água deixado através da pequena passagem aberta no canto inferior da porta, molhou os lábios que já se partiam e deitou-se no colchão fino, no chão. Sem lençóis, sem fronhas, sem estrado... “Assim ela não vai cometer outra loucura”, foi o que a mãe havia dito enquanto a levavam lá para cima.
Há tanto tempo que não via as pessoas, que já começava a esquecer dos rostos, mesmo daquelas que havia amado. Confundia o rosto da mãe com o da babá, na verdade, a babá tinha sido mais próxima do que a mãe jovem e bela. Lembrava-se vagamente do olhar sério do irmão mais velho e do sorriso meio debochado do mais novo. Do pai, de quem sempre fora muito próxima, só conseguia lembrar do olhar petrificado que a havia encarado no momento do tiro. Olhos incrédulos. Mesmo assim, não sentia nada. Só não se esquecia daqueles olhos cinza. Não poderia se esquecer. Fechou os olhos e tentou dormir, pediu por um sono sem sonhos, a ninguém especificamente, não acreditava em deuses, em santos, mas mesmo assim os sonhos vieram.

(continua)

6 comentários:

  1. Oi!

    Eu sou amiga da Fefa, e vim atender o pedido dela.
    O texto está muito bom, prende a gente e estou curiosa para ver como continua. Parabéns!

    Beijos,

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  2. Excelente, estou louco para ler a continuação. Abraços.

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  3. Olá, vim por indicação da Fefa.
    Gostei do texto! Voltarei pra ler a continuação. :)
    Continue escrevendo, você tem talento.
    Beijos.

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  4. A história é boa! Quero ler o resto! =]

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  5. A história é muito boa e vc é realmente talentosa, parabéns

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