segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

São os Loucos Anos 20 - Parte II


São os Loucos Anos 20
Parte II 

O dia estava quente demais para o inicio da primavera e pela janela ela via as árvores que floresciam e enchiam o ar de perfume. Os cheiros e aromas sempre chamaram sua atenção. Gostava de cheirar tudo antes de comer, especialmente se tivesse canela. A lembrança mais antiga que tinha era de um dia quando, ela ainda muito pequena, andava pela fazenda do pai, os irmãos correndo a sua frente e a babá segurando sua mão. “Veja, aquela é uma árvore de canela!” disse a mulher, então apanhou uma folha verde da pequena árvore e a esmagou nas mãos, o suave perfume encheu o ar. Agora, o perfume de centenas de flores e plantas a deixava feliz, tornava seu mundo perfeito ainda mais bonito. O ar quente e perfumado e o som da locomotiva sobre os trilhos embalavam seus pensamentos de repente interrompidos por uma parada brusca.
Pela vidraça da porta que separava sua cabine de luxo do corredor, viu as pessoas correndo para ver o que havia acontecido. Da janela não conseguia ver a razão pela qual a viagem havia sido interrompida, mas não ia se levantar, a curiosidade não era mais forte do que a falta de gosto pela multidão. Odiava a sensação de estar entre muitas pessoas, odiava gente se acotovelando, odiava que pessoas desconhecidas, e até as conhecidas, a tocassem. Não era orgulho nem maldade, era só algo de que não gostava, assim como não gostava de comer à mesa quando havia muitos convidados - apesar de ter se acostumado a fazê-lo. Preferia comer na cozinha, sentada sozinha na mesa de madrepérola branca, enquanto os criados andavam de um lado para o outro. Lá podia sentir o cheiro dos temperos e isso parecia tornar os alimentos mais saborosos, infelizmente, não podia fazer isso com freqüência.
“Senhorita, talvez queira descer, um animal nos trilhos... ah, acredito que vai demorar um pouco para limparmos a sujeira e para que o trem possa seguir viagem, por sorte estamos ao lado de uma estação desativada, se a senhorita quiser, pode pegar uma fresca lá fora enquanto aguarda...”, o moço disse sem erguer os olhos, como se se sentisse envergonhado por falar com alguém como ela. Sem o movimento do trem, o calor dentro da cabine começou a ficar insuportável e ela decidiu descer e respirar um pouco de ar puro.
Sempre teve consciência de que não era exatamente bonita, pelo menos estava certa de que não possuía aquela beleza clássica e perfeita que se via no cinema, por isso, nunca entendeu porque, atraia todos os olhares por onde passava. Não foi diferente quando desceu os pequenos degraus que levavam à plataforma desativada. Sentia os olhos que a acompanhavam a cada passo, mas já estava acostumada. Todos a olhavam, ela não olhava ninguém.
Caminhou pela passarela, o som tão característico de seus passos a cada toque do pequeno salto no chão de madeira, o vestido de seda leve esvoaçante, última moda nas grandes capitais, feito sob medida por sua modista. Observou as pessoas que se aglomeravam pelos cantos buscando um pouco da sombra escassa ao sol do meio dia. A maioria, trabalhadores das fazendas que iam até a cidade resolver seus problemas acompanhados de suas famílias. Crianças sentadas no chão brincando com o que estivesse a disposição para passar o tempo, perto de suas mães que conversavam em algazarra, homens jogando dados e cartas, outros fumando.
Caminhou até o final da passarela de passeio observando as poltronas desgastadas e se lembrando de quantas vezes havia feito aquela viagem entre a fazenda do pai e a cidade, ela, os irmãos, a mãe e a babá. Sempre paravam ali para que mais viajantes entrassem no trem, era um lugar conhecido e que trazia boas recordações.
O ar estava quente e seco. De repente sentiu sede. Resolveu voltar ao vagão, o calor estava sufocante, mais forte do que no interior do trem. Quando se virou, como sempre, muitos olhares estavam em sua direção, mas, pela primeira vez, percebeu, em meio a tantos olhares, aqueles olhos. Eram olhos cinza que a encaravam, sem medo, sem a submissão típica dos inferiores e sem o deslumbramento dos iguais. Olhos que pareciam saber e ver que ela era apenas uma pessoa.
Uma sensação estranha tomou conta dela. Sentiu raiva pela indolência daquele olhar. Quis desviar os olhos para acabar com aquele desconforto, mas manteve-se firme, não abaixaria a cabeça, ele é quem tinha que desviar os olhos, mas ele não o fez, manteve o olhar diretamente em seus olhos, sentiu o rosto esquentar, o calor pareceu aumentar, então, a sensação de ter perdido a batalha encheu-a de raiva que quase transbordou com o leve ar de riso dele. Com passos rápidos voltou ao vagão, pela primeira vez na vida quase perdeu a compostura.
“Devia ter ficado aqui” pensou enquanto sentou-se com raiva na poltrona macia, pegou o exemplar de Ulysses e tentou retomar a leitura, mas aqueles olhos a assombravam e a cada minuto ela se pegava olhando pela janela, sem admitir para si mesma que estava a sua procura. Queria revidar, queria que ele compreendesse qual era seu lugar. O velho trem retomou o movimento, algumas horas se passaram até chegar à cidade, ela não voltou a ver os olhos cinza, também não conseguiu ler ou dormir. 

(contiua)

2 comentários:

  1. Oi!

    Novamente, o texto está ótimo, muito bem escrito, as descrições perfeitas sem serem cansativas. E já com um gancho para a próxima parte, me deixando ainda mais curiosa! Parabéns!

    Beijos!

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  2. Que bom que está gostando, obrigada pela ajuda.

    Se tiver erros ou criticas, por favor, fique a vontade para expressar

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